Reportagem: As Águas de Agosto

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Foto: Jean Peixoto

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A chuva passou, o Rio dos Sinos baixou, mas os estragos provocados pela enchente de agosto continuam presentes. Senão no dia a dia, certamente na memória das oito mil pessoas atingidas pelo maior alagamento de São Leopoldo desde 1965. Passados dois meses da enxurrada que alcançou mais de duas mil residências na cidade, o assunto saiu das manchetes, mas as famílias que perderam seus bens continuam lutando para reconstruir seu patrimônio.

O grande volume de chuva que atingiu o Rio Grande do Sul no mês de agosto provocou alagamentos em diversos bairros de São Leopoldo. Os mais atingidos foram São Geraldo e Feitoria. Na quarta feira (28/08) o nível do Rio dos Sinos já atingia 6,10 metros, 4,10 metros acima do seu nível normal. Diversas campanhas para arrecadação de roupas, colchões e alimentos foram realizadas pela prefeitura e pela própria população, que participou ativamente nas ações de auxílio aos desabrigados.

A situação do rio hoje já é outra, seu nível está normalizado, ao contrário das vidas de muitas das vítimas. Com o Decreto de Emergência emitido pela Defesa Civil em 09 de setembro, foi viabilizado um limite de saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) no valor de R$6.220,00, previsto pelo Ministério de Integração Nacional para vítimas de desastre natural, como medida de apoio financeiro às famílias.

A imensa fila na sala de espera da Defesa Civil nos apresenta de imediato à rotina estabelecida desde o dia 14 de outubro, quando os atendimentos para a liberação do FGTS começaram a ocorrer. Com uma média de 100 atendimentos diários, centralizados na escola Olímpio Viana Albrecht, no Bairro Feitoria, até a sexta feira (18/10) cerca de 536 famílias já haviam sido recebidas.

“Perdemos os móveis do quarto do nenê e toda a nossa cozinha”, lamenta Patrícia Simone Zitto, ex-moradora do bairro São Geraldo, o mais afetado pela inundação. Patrícia, que já passou pela experiência de ver sua casa alagada na enchente ocorrida em 2008, conta que alimentava o pequeno Enzo, de um ano e sete meses, quando por volta das 20 horas, a água começou a invadir a casa através das torneiras. Na madrugada da segunda feira (26/08) foi para a residência de sua mãe, onde ficou durante uma semana. No retorno, a desolação de ver sua casa, construída ao longo de 12 anos de trabalho, devastada pela água. Mudar-se deixou de ser uma opção e tornou-se uma necessidade. Hoje, Patrícia, o filho e o seu esposo estão morando em um apartamento em uma região afastada do rio. “No apartamento eu deito a cabeça no travesseiro e consigo dormir”, relata, mas revela a inconformação de seu esposo em deixar sua casa para trás.

Foto: Jean Peixoto

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Com apenas 15 anos de idade—ou quase 16 como ele prefere dizer— Magno Paza Chaves já viu de perto as duas maiores enchentes enfrentadas pela cidade nas últimas décadas. O garoto mora à beira do Rio dos Sinos, na região conhecida como Vila do Sapo. A humilde casa de madeira, hoje fica há cerca de 3 metros do chão, pois conforme o relato de Magno, na enchente de 2008 a família perdeu todos os móveis. “Dessa vez a água entrou só uns 40 centímetros dentro de casa”, conta, enquanto mostra as marcas na parede. O estudante ressalta a ajuda mútua dos moradores entre si. Lembra que ele e seu pai ajudaram a resgatar algumas famílias  com seu pequeno barco. Relata o drama de uma vizinha que mesmo vendo a água invadindo sua casa, se negava a sair, e só aceitou retirar-se quando a água já batia em seu peito. Pergunto se ele tem medo de morar ali, mas com naturalidade ele responde que não, pois sabe que não tem outro lugar para viver.

Três pares de botas furadas e nenhum servidor público estatutário. Foi assim que o Secretário-Adjunto de Segurança Pública, Marcelo Buz, recebeu a secretaria das mãos da gestão anterior, do ex-prefeito Ary Vanazzi (PT). Mesmo em tais condições, Buz e sua equipe adentraram as regiões de risco para alertar e remover as famílias desses locais. Quando questiono o secretário sobre a causa desse desastre ambiental na cidade, sua resposta é categórica: “É o rio cobrando o preço pela invasão do seu espaço”. Relata que essa foi a primeira vez na história de São Leopoldo que a Defesa Civil precisou atuar em campo e não descarta a possibilidade de novas inundações em casos de chuvas torrenciais como as de agosto, pois este problema é um impasse histórico da cidade.

Foto: Jean Peixoto

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Fotojornalismo: Grupo japonês ampliará produção em Gravataí

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Fotografia tirada durante evento realizado na Sala do Investidor na segunda feira, 04 de novembro. JCFotografia publicada nos seguintes veículos: Jornal do Comércio (Impresso e Online) Portal do Governo do Estado do Rio Grande do Sul Revista Evidência

Reportagem: Redescobrindo a ilustração gaúcha

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Resgatar a memória histórica e afetiva da Livraria e Editora Globo. Com este propósito, Paula Ramos, crítica de arte, professora e pesquisadora do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) organizou a exposição “Artistas Ilustradores – A Modernidade Impressa nas publicações da antiga Editora Globo”, na qual apresenta um vasto acervo de capas, ilustrações, livros, revistas e cartazes produzidos durante as primeiras décadas do Século XX.  A mostra pretende dar vida nova aos trabalhos de grandes artistas que ajudaram a construir o imaginário cultural de uma geração, e, no entanto, há muito se encontram resignados aos arquivos editoriais.

A mostra, que ocorre na sala Arquipélago do Centro de Cultura Érico Veríssimo, no Centro Histórico de Porto Alegre, iniciou no dia 12 de setembro e tem duração prevista até 23 de outubro. O evento conta com apoio do FAC, Fundo de Apoio à Cultura do Estado (Pró-Cultura RS FAC – Lei 13.490/10, Edital 02/2012).

A exposição é fruto das pesquisas de Mestrado e Doutorado de Paula Ramos, realizadas junto ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRGS e defendidas em 2002 e 2007. Pesquisas nas quais, a autora discute a emergência de uma visualidade moderna pela ilustração, analisando a obra gráfica dos mais atuantes ilustradores da Globo na primeira metade do século passado. O projeto apresenta cerca de 150 obras selecionadas entre as pesquisas e o acervo pessoal da curadora, que afirma ter cerca de 500 livros da antiga Livraria.

Paula conta que esse trabalho é a premissa de um projeto paralelo. O lançamento do livro com as ilustrações que compõem a mostra. Com fundo proveniente do programa “Petrobras Cultural”, o livro será lançado em 2015. Salienta o incentivo recebido do artista plástico Gilberto Menegaz, que a auxiliou na formatação da proposta. Quanto à escolha do local, Paula não deixa dúvidas sobre seus critérios “Eu achava que tinha tudo a ver fazermos lá, pois o Érico Veríssimo foi figura de proa na Livraria do Globo e porque a instituição tem uma história pregressa com livros e impressos em geral.”

A Livraria do Globo, nascida em 1883, próxima à antiga Rua da Praia, em Porto Alegre, teve um papel fundamental na construção do quadro editorial e da linguagem gráfica nacional. Posteriormente chamada de Editora Globo, o grupo foi responsável pela tradução e publicação de obras de célebres autores como William Faulkner, Virginia Woolf, Thomas Mann, Aldous Huxley e Somerset Maugham. A editora foi responsável pela projeção nacional de escritores gaúchos que se tornaram referências literárias como Dyonélio Machado, Moysés Vellinho, Augusto Meyer, Mário Quintana e Érico Veríssimo.

Ao adentrar a sala de exposições, nos deparamos com os primeiros exemplares produzidos na então chamada “Secção de Desenho”, onde renomados artistas plásticos como João Fahrion , Edgar Koetz, Nelson Boeira Faedrich e Sotéro Cosme produziram memoráveis ilustrações para suas publicações, sob a supervisão de Ernst Zeuner .

Os editoriais da Globo, por questões mercadológicas, em geral eram lançados dentro de coletâneas. Foram ao todo 17 coleções, cada uma com um projeto gráfico diferenciado para atender a públicos específicos. Em relação aos aspectos visuais, recebem destaque as coleções Tucano, Nobel e Universo.

Após subir um breve lance de escadas, chegamos ao nicho central onde se encontra o acervo principal. À direita nos deparamos com uma belíssima série de ilustrações que retratam figuras típicas do folclore gaúcho, expressas sob a ótica literária do autor Simões Lopes Neto, nas gravuras assinadas por Nelson Boeira Faedrich.

Na sequência, podemos contemplar uma versão ilustrada da antológica obra de Álvares de Azevedo, Noite na Taverna, recriada por João Fahrion. Esta série de cinco ilustrações rendeu a Fahrion, a Medalha de Ouro no II Salão de Belas Artes do Rio Grande do Sul em 1940.  As obras foram reunidas e lançadas em um livro em 1952, em comemoração ao centenário da morte do escritor.

Ao fundo, sobre a côncava parede central, nos deparamos com a riquíssima coleção de capas da Revista do Globo. Surgida em janeiro de 1929, ostentou desde o princípio o conceito da modernidade em suas publicações, que serviram de parâmetro para jornalistas, ilustradores, fotógrafos e artistas de todo o país. Sotéro Cosme, responsável pelas capas da revista, apropria-se da tradicional art decó para introduzir essa modernidade associada à cultura pop. Outra característica marcante de suas capas está na predominância da figura feminina, constantemente requisitada pelo contexto dos editoriais.

Na parede adjacente, inicia-se a seção dedicada ao “Fabuloso universo dos Livros Infantis”, onde encontramos obras ilustradas que vão de Lewis Carrol a Érico Veríssimo. Entre as gravuras, em sua maioria assinadas por João Fahrion, destaque para Alice na Terra das Maravilhas, (Sim, na Terra das Maravilhas) de Carrol  , e As aventuras do Avião vermelho, de Veríssimo. Para comportar os contos do alemão Hans Christian Andersen, foi criada a Coleção Cinderela, na qual foram publicados cinco volumes entre 1958 e 1961. Destes, três foram ilustrados por Nelson Boeira Faedrich e os demais pela imigrante alemã radicada em Porto Alegre, Roswitha Wingen-Bitterlich. Em uma vitrine lateral, encontramos alguns esboços de Faedrich para a série Contos de Andersen que possuía 1648 páginas com 163 ilustrações em preto e branco e 42 coloridas.

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Publicado originalmente em: www.valejornal.com.br