Reportagem: Redescobrindo a ilustração gaúcha

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Resgatar a memória histórica e afetiva da Livraria e Editora Globo. Com este propósito, Paula Ramos, crítica de arte, professora e pesquisadora do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) organizou a exposição “Artistas Ilustradores – A Modernidade Impressa nas publicações da antiga Editora Globo”, na qual apresenta um vasto acervo de capas, ilustrações, livros, revistas e cartazes produzidos durante as primeiras décadas do Século XX.  A mostra pretende dar vida nova aos trabalhos de grandes artistas que ajudaram a construir o imaginário cultural de uma geração, e, no entanto, há muito se encontram resignados aos arquivos editoriais.

A mostra, que ocorre na sala Arquipélago do Centro de Cultura Érico Veríssimo, no Centro Histórico de Porto Alegre, iniciou no dia 12 de setembro e tem duração prevista até 23 de outubro. O evento conta com apoio do FAC, Fundo de Apoio à Cultura do Estado (Pró-Cultura RS FAC – Lei 13.490/10, Edital 02/2012).

A exposição é fruto das pesquisas de Mestrado e Doutorado de Paula Ramos, realizadas junto ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRGS e defendidas em 2002 e 2007. Pesquisas nas quais, a autora discute a emergência de uma visualidade moderna pela ilustração, analisando a obra gráfica dos mais atuantes ilustradores da Globo na primeira metade do século passado. O projeto apresenta cerca de 150 obras selecionadas entre as pesquisas e o acervo pessoal da curadora, que afirma ter cerca de 500 livros da antiga Livraria.

Paula conta que esse trabalho é a premissa de um projeto paralelo. O lançamento do livro com as ilustrações que compõem a mostra. Com fundo proveniente do programa “Petrobras Cultural”, o livro será lançado em 2015. Salienta o incentivo recebido do artista plástico Gilberto Menegaz, que a auxiliou na formatação da proposta. Quanto à escolha do local, Paula não deixa dúvidas sobre seus critérios “Eu achava que tinha tudo a ver fazermos lá, pois o Érico Veríssimo foi figura de proa na Livraria do Globo e porque a instituição tem uma história pregressa com livros e impressos em geral.”

A Livraria do Globo, nascida em 1883, próxima à antiga Rua da Praia, em Porto Alegre, teve um papel fundamental na construção do quadro editorial e da linguagem gráfica nacional. Posteriormente chamada de Editora Globo, o grupo foi responsável pela tradução e publicação de obras de célebres autores como William Faulkner, Virginia Woolf, Thomas Mann, Aldous Huxley e Somerset Maugham. A editora foi responsável pela projeção nacional de escritores gaúchos que se tornaram referências literárias como Dyonélio Machado, Moysés Vellinho, Augusto Meyer, Mário Quintana e Érico Veríssimo.

Ao adentrar a sala de exposições, nos deparamos com os primeiros exemplares produzidos na então chamada “Secção de Desenho”, onde renomados artistas plásticos como João Fahrion , Edgar Koetz, Nelson Boeira Faedrich e Sotéro Cosme produziram memoráveis ilustrações para suas publicações, sob a supervisão de Ernst Zeuner .

Os editoriais da Globo, por questões mercadológicas, em geral eram lançados dentro de coletâneas. Foram ao todo 17 coleções, cada uma com um projeto gráfico diferenciado para atender a públicos específicos. Em relação aos aspectos visuais, recebem destaque as coleções Tucano, Nobel e Universo.

Após subir um breve lance de escadas, chegamos ao nicho central onde se encontra o acervo principal. À direita nos deparamos com uma belíssima série de ilustrações que retratam figuras típicas do folclore gaúcho, expressas sob a ótica literária do autor Simões Lopes Neto, nas gravuras assinadas por Nelson Boeira Faedrich.

Na sequência, podemos contemplar uma versão ilustrada da antológica obra de Álvares de Azevedo, Noite na Taverna, recriada por João Fahrion. Esta série de cinco ilustrações rendeu a Fahrion, a Medalha de Ouro no II Salão de Belas Artes do Rio Grande do Sul em 1940.  As obras foram reunidas e lançadas em um livro em 1952, em comemoração ao centenário da morte do escritor.

Ao fundo, sobre a côncava parede central, nos deparamos com a riquíssima coleção de capas da Revista do Globo. Surgida em janeiro de 1929, ostentou desde o princípio o conceito da modernidade em suas publicações, que serviram de parâmetro para jornalistas, ilustradores, fotógrafos e artistas de todo o país. Sotéro Cosme, responsável pelas capas da revista, apropria-se da tradicional art decó para introduzir essa modernidade associada à cultura pop. Outra característica marcante de suas capas está na predominância da figura feminina, constantemente requisitada pelo contexto dos editoriais.

Na parede adjacente, inicia-se a seção dedicada ao “Fabuloso universo dos Livros Infantis”, onde encontramos obras ilustradas que vão de Lewis Carrol a Érico Veríssimo. Entre as gravuras, em sua maioria assinadas por João Fahrion, destaque para Alice na Terra das Maravilhas, (Sim, na Terra das Maravilhas) de Carrol  , e As aventuras do Avião vermelho, de Veríssimo. Para comportar os contos do alemão Hans Christian Andersen, foi criada a Coleção Cinderela, na qual foram publicados cinco volumes entre 1958 e 1961. Destes, três foram ilustrados por Nelson Boeira Faedrich e os demais pela imigrante alemã radicada em Porto Alegre, Roswitha Wingen-Bitterlich. Em uma vitrine lateral, encontramos alguns esboços de Faedrich para a série Contos de Andersen que possuía 1648 páginas com 163 ilustrações em preto e branco e 42 coloridas.

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Publicado originalmente em: www.valejornal.com.br

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